O estreitamento da cooperação homem-computador abre um panorama criativo de novas possibilidades dentre elas, aquelas inerentes à produção audiovisual e à produção publicitária. Os recursos das novas ferramentas digitais instigam diferentes metáforas e conceitos criativos enquanto os nativos digitais insuflam os softwares com novas idéias e novos padrões de comportamento.
Esta simbiose entre o artista/produtor e o software aproveita o melhor dos dois mundos, produzindo resultados que trazem a tona ( novamente ? ) a inesgotável discussão arte X tecnologia.
J. C. R. Licklider, físico, matemático e psicólogo norte-americano escreveu em 1960 ( UAU ! ) sobre a simbiose entre o homem e o computador:
“…the hope is that, in not many years, human brains and computing machines will be coupled together very tightly, and that the resulting partnership will think as no human being has ever thought and process data in a way not approached by the information-handling machines we know today” – ver o artigo completo de Licklider em : http://memex.org/licklider.pdf
Veja o Making of da produção da vinheta de abertura da minissérie Capitu de Luiz Fernando Carvalho, baseada na obra “Dom Casmurro” de Machado de Assis, para a Rede Globo ( Criação e produção : http://www.lobo.cx )
Compartilho com vocês um resumo da apresentação que faço hoje, na Campus Party 2009 – estande do SENAC, as 19 horas falando sobre a evolução da linguagem musical e da tecnologia de aúdio dentro do mundo dos vídeo games.
Considero a música, pela sua essência, impotente para exprimir o que quer que seja: um sentimento, uma atitude, um estado psicológico, um fenómeno da natureza, etc. A expressão não foi nunca a propriedade imanente da música. A razão de ser desta não é de forma alguma condicionada por aquela. Se, como é quase sempre o caso, a música parece exprimir qualquer coisa, trata-se apenas de uma ilusão e não de uma realidade. É simplesmente um elemento adicional que, por uma convenção tácita e inveterada, lhe atribuímos, imposto como uma etiqueta, um protocolo, enfim, uma aparência, e que, por hábito ou inconsciência, chegamos a confundir com a sua essência - Igor Stravisnky
O conceito de música defendido por Stravisnky é polêmico, derruba milhares de anos de associações, místicas, matemáticas, literárias e plásticas que a humanidade tem feito para justificar a atribuição de sigificados extra-musicais às experiências da audição musical.
Tenho visto já faz algum tempo em festas de casamento ou em aniversários a presença de um DJ ou animador que toca uma seleção musical enquanto são projetados vídeo clipes sem nenhuma relação com o repertório sonoro que é executado…para a maioria da pessoas passa desapercebido assistir um trecho ( sem áudio ) de um show do Queen no telão enquanto escuta Titãs ou Bruno & Marrone !
A relação imagem e música é fruto de séculos da evolução de sinapes cerebrais construídas a partir do referencial estético e social de cada cultura.
Hoje, com a massificação e a globalização do repertório audio visual, certos ‘cliches’ são senso comum, como por exemplo na famosa cena do banheiro de Psicose ( Psycho de A. Hitchcock ) onde a repetição de acordes na região aguda dos violinos praticamente virou sinônimo de assasinato.
A estreita relação entre som e imagem, foi muito explorada pelo cinema de animação em uma técnica que ficou conhecida como “Mickeymousing” na qual o som parecia perseguir e enfatizar cada movimento da tela.
Em “A Dança do Esqueleto” ( Disney Silly Symphony – The Skeleton Dance ) de 1929, um clássico exemplo da técnica do “Mickeymousing”. Fantástico !
Em outros casos a música já existia, e o diretor aproveitou-se dela para construir a cena, como na sequência em que os macacos descobrem o uso da arma para subjugar seus adversários ( uma elipse de tempo sensacional ! ) em “2001 uma Odisséia no Espaço”, filme sobre o qual já falei aqui.
Jerry Lewis soube muito bem como utilizar-se do universo musical para construção da imagem e do siginificado. Parece que a música foi escrita para a cena, quando na verdade ela já existia : Blues in Hoss’ Flat de Count Basie. Imperdível a pantomima de Lewis em “O Mocinho Encreiqueiro” - The Errand Boy (1961)
Também muito interessante a experimentação de Michel Gondry para a música “Star Guitar” dos “Chemical Brothers” de 2002. Os vídeo clipes e os vídeo games são hoje o terreno fértil para as modernas experimentações do contraponto entre o som e a imagem
Se você se interessou pelo assunto, algumas dicas de leitura :
Campanha da Intel no ar desde agosto de 2007 ( criada pela agência McCann Erickson ) o site www.maisdemim.com.br mostra o vídeo de um casal no centro de São Paulo que se multiplica em várias cópias, em analogia á performance do processador Core 2 Duo.
Durante o vídeo o usuário escolhe as alternativas de sequência e constrói a sua própria narrativa clicando nas opções que são apresentadas além de descobrir vários “easter eggs” escondidos na narrativa.
Velhos roteiros para novas mídias, ou se você preferir como diz Vicente Gosciola no seu excelente trabalho : ROTEIRO PARA AS NOVAS MÍDIAS publicado pela Editora SENAC.
“Novas tecnologias de comunicação e de informação, ou novas mídias, abriram-se também para as possibilidades de contar histórias. Assim como no caso do cinema, no período inicial do contar histórias através das novas mídias, as histórias eram mais simples. Porém, agora, elas são contadas de maneira complexa, isto é, graças aos recursos das novas mídias, podem ser apresentadas por diversos pontos de vista, com histórias paralelas, com possibilidades de interferência na narrativa, com opções de continuidade ou descontinuidade da narrativa e muito mais.”
Quando do surgimento da fotografia na metade do século XIX dizia-se que estava decretado o fim da pintura, quando o tímido experimento dos irmãos Lumiere ganhou dimensões comerciais dizia-se que o teatro e os musicais se extinguiriam, o mesmo se falou da televisão em relação ao rádio.
De certo modo isto se manteve inalterado até a última década do séc. XX momento no qual o processo de digitalização começa a varrer os últimos guerreiros analógicos das trincheiras da mídia.
Aos poucos estamos quebrando a lógica de Mcluhan (o meio é a mensagem), quando hoje o meio (ou o suporte) passa a ser indiferente já que informação digital rompe a parceria entre forma e conteúdo: o conteúdo são os bits e a forma pode ser aquela que nós quisermos, qualquer dispositivo que realize a decodificação dos bits…
Esta semana participei da gravação de uma matéria para o programa Urbano do canal Multishow no qual o processo de produção, desde as reuniões de pauta até a exibição do programa na TV, integra os vários suportes em um caldeirão de idéiase e processos que antes não era possível.
A Internet devora de maneira antropofágica “the old media” e regurgita novos formatos nos quais continuamos enxergando a essência da linguagem audiovisual e comunicacional dos meios que lhes precederam: as artes, a fotografia, o rádio, a TV, o cinema, a revista…
Um grande abraço para o Paulo Marchetti e para toda a equipe de produção do programa Urbano…