Os Luditas e os Gurus da Tecnologia

O novo velho ou o velho novo ?

O novo velho ou o velho novo ?

O futuro sempre fascinou o homem, vislumbrar novas possibilidades, novos contextos e novas realidades (virtuais ou não) fazem parte da trajetória da civilização desde os seus primórdios.

Esta visão ou pré-visão, que já foi guiada por rituais mágicos ou escritos religiosos em tempos distantes, aos poucos foi se inserindo no campo da racionalidade, tornando a futurologia uma ciência palpável e com lugar de destaque na academia e no mercado, contribuindo para o planejamento, posicionamento e direcionamento de empresas, marcas e veículos de comunicação.

A rápida ascensão e obsolescência de tecnologias, ferramentas e processos, cria ciclos de vida cada vez mais curtos para produtos e serviços. No século XXI, a noção do continuum do tempo é contraposto ao nowismo da sociedade contemporânea na qual a sensação do presente eterno descolado do passado e ligado diretamente ao futuro nos faz, muitas vezes, tratar os meios de comunicação como uma constante sobreposição de formatos, canais e veículos que “matam” seus antecessores e apagam suas origens.

A construção do mundo digital, binário e conectado não é feita a partir de um reset do velho mundo analógico, é embasada no resultado de milênios de experiência investigativa conduzida à duras penas pelos nossos antepassados.

Vejam o caso do livro, hoje se discute a morte do livro impresso e a primazia do livro digital, não é o livro que morre é o suporte que evolui. O livro já foi pedra, argila, madeira, couro, papiro, papel encadernado. Nos últimos anos ele virou PDF, ePUB, App, WEB, Nuvem…

As mudanças não são cartesianas, não são decretadas através de uma data de início com validade pré-determinada e uma nova prática não eliminada por completo a anterior, elas se mesclam e se complementam durante um período até que a mais confortável, a mais viável e principalmente aquela que permite a adoção de modelos de negócios claros e mensuráveis se consolide como uma nova solução.

Qual a variável que mudou radicalmente em todo este processo histórico ? A velocidade !

A história da evolução das tecnologias midiáticas não é uma curva linear, é uma curva exponencial que a partir do final do século XIX rapidamente aponta para uma infinita linha vertical, após percorrer séculos de um aclive suave, quase na horizontalidade.

Esta (re)visão histórica é hoje viável por que temos agora ciclos tecnológicos mais curtos dentro dos quais podemos medir e comparar as vantagens, desvantagens e impactos destas tecnologias na maneira como criamos, produzimos, distribuímos e consumimos conteúdo. A supremacia de uma nova tecnologia midiática só pode ser avaliada em sua eficácia quando temos a chance de compará-la com aquela que foi suplantada.

Esses períodos de comparação e transição entre os ciclos tecnológicos são um terreno fértil para a ação de dois personagens: Os Luditas e os Gurus.

Os Luditas: Por volta de 1810, época onde os efeitos da revolução industrial faziam-se sentir de maneira intensa em Londres, os trabalhadores temiam que com o crescente emprego das máquinas a vapor perderiam seus empregos. Ned Ludd, também chamado de “King” Ludd, liderou revoltas dos operários que invadiam fábricas e destruíam suas instalações como forma de conter a escalada da automação industrial na qual a mão de obra operária seria substituída pelo uso das máquinas. Daí a expressão Ludita ou Neoludita, usada até hoje para nomear os tecnofóbicos e depois os digifóbicos, aqueles que se mantém à margem da evolução e negam ou ignoram a chegada dos novos meios e processos.

Os Gurus: Figuras místicas conhecidas pelo seu carisma e poder de liderança, anunciam, evangelizam e profetizam o futuro, as vezes sombrio, mas na maioria das vezes utópico. Estabelecem uma relação quase religiosa com seus seguidores. Atuam com desenvoltura no ambiente tecno-digital, conquistando usuários menos avisados e criando multidões de early-adopters que se deslumbram com a promessa de exclusividade e de um mundo perfeito de novas tecnologias e dispositivos.

Os primeiros se prendem ao passado e às práticas consagradas, os segundos visualizam uma tábua rasa onde tudo se apresenta como inovação, tudo é um novo tempo, uma nova solução.

Uma nova  tecnologia só se afirma como tal quando se integra no contexto cotidiano das relações entre homem e sua cultura, é o momento onde ela se torna invisível, é assimilada e passa a ser uma extensão do ser humano.

A escolha e implantação de novos processos, métodos, tecnologias é um caminho que requer equipes multidisciplinares, cientes do legado histórico e cultural dos processos de comunicação, mas conectada no admirável mundo novo que já se faz presente.

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